sábado, 15 de agosto de 2015

Notas sobre a Guerra da Vida

CHAVES PARA A GUERRA *

    Pode-se definir a realidade como uma série nítida de limitações a todos os seres vivos, sendo a morte a última fronteira. Temos apenas uma determinada quantidade de energia para gastar antes de nos cansarmos; somente uma quantidade na forma de alimento e recursos está disponível para nós; nossas habilidades e capacidades vão apenas até esse ponto. Um animal vive dentro desses limites: ele não tenta voar mais alto, correr mais rápido ou gastar uma energia sem fim acumulando uma pilha de comida, pois isso o deixaria esgotado e vulnerável a ataques. Ele simplesmente tenta aproveitar ao máximo o que tem. Um gato, por exemplo, pratica instintivamente uma economia de movimentos e gestos, jamais desperdiçando o esforço. Pessoas que vivem na pobreza também têm uma forte consciência de seus limites: forçadas a tirar o maior proveito do que têm, elas são infinitamente inventivas. A necessidade tem um poderoso efeito sobre sua criatividade.

Jiu Jitsu: a "alavanca", melhor resultado com o menor esforço
    O problema enfrentado por aqueles de nós que vivem na classe média ou em sociedades mais ricas é que perdemos a noção de limite. Somos cuidadosamente protegidos da morte e podemos passar meses, até anos, sem pensar nela. Imaginamos um tempo infinito a nossa disposição e aos poucos nos afastamos cada vez mais da realidade; imaginamos uma energia infinita a qual recorrer, pensamos que podemos ter o que desejamos simplesmente nos esforçando mais. Começamos a ver tudo como ilimitado - a boa vontade dos amigos, a possibilidade de riqueza e fama. Algumas aulas e livros a mais e podemos ampliar nossos talentos e habilidades até nos tornarmos pessoas diferentes. A tecnologia pode tornar tudo realizável.

    A abundância nos faz ricos em sonhos, pois em sonhos não há limites. Mas isso nos deixa pobres em realidade. Ficamos moles e decadentes, entediados com o que temos e precisando de choques constantes para nos lembrar de que estamos vivos. 

    Na vida você tem de ser um guerreiro, e guerra requer realismo. Enquanto outros podem encontrar beleza em sonhos infindáveis, guerreiros a encontram na realidade, na consciência de limites, tirando o melhor partido do que têm. Como gato, eles procuram a perfeita economia de movimentos e gestos - o modo de conferir a seus golpes a maior força com o menor esforço. A consciência que eles têm que seus dias estão contados - de que podem morrer a qualquer instante - os mantém com os pés na realidade. Há coisas que eles jamais podem fazer, talentos que jamais possuirão, metas grandiosas que jamais alcançarão; isso dificilmente os preocupa.
O Guerreiro

    Guerreiros concentram-se no que eles têm, na força que eles possuem e que devem usar de forma criativa. Sabendo quando diminuir a marcha, renovar, economizar, eles duram mais que seus adversários. Eles jogam no longo prazo.

* Fonte: "33 Estratégias de Guerra", de Robert Greene

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O Povo do Livro e da Palavra

Pequeno judeu observado por Rabino e seu Livro

  Contando com apenas 0,2% da população mundial e 2% da população americana, os judeus ganharam 22% de todos os Prêmios Nobel, 20% das Medalhas Fields para matemáticos e 67% das Medalhas John Clarke Bates para economistas com menos de 40 anos. Judeus também ganharam 38% de todos os prêmios Oscar para melhor diretor, 20% dos Pullitzer Prizes para não-ficção e 13% dos Grammy Lifetime Achievement Awards.
  Essas informações constam em uma nota de rodapé do livro Civilization, de Niall Ferguson, de 2011. Desde então, judeus acumularam mais alguns desses prêmios. Além disso, Israel, com apenas 8 milhões de habitantes, é a grande locomotiva mundial quando o assunto é tecnologia, e possui mais empresas listadas no Nasdaq do que toda a Comunidade Europeia junta.
Diante desses dados, o leitor pode concluir que os judeus fazem parte de um grande complô mundial, uma conspiração planetária que os coloca no domínio de tudo, como queriam os antissemitas que produziram Os Protocolos do Sábio de Sião; ou então que eles possuem uma inegável superioridade genética. Não aprecio nenhuma das duas alternativas, e fico com uma terceira, mais plausível: o ambiente cultural do judaísmo é um fator de diferenciação que abre certa vantagem na hora de competir no mercado.

  Eventual vantagem não seria apenas ou principalmente aspecto religioso, muito menos genético, e sim cultural. No princípio era o verbo, e desde então também. O conteúdo verbal, transmitido de geração em geração, é o que forma esse continuum único, que sempre serviu como cola para unir os hebreus e lhes transmitir certas características interessantes.

  Viria do legado das palavras de antepassados a inspiração para explicar a continuidade judaica, reconhecem que uma das características mais marcantes desse legado é justamente a ousadia de questionar, de inovar, e isso faz toda a diferença. Não só os judeus foram historicamente mais alfabetizados, por depositar grande importância na palavra, como eram questionadores e adoravam um bom debate.
  “Nenhuma civilização antiga”, escreveu Mordecai Kaplan, “pode oferecer um paralelo comparável em intensidade com a insistência do judaísmo em ensinar os jovens e inculcar neles as tradições e costumes de seu povo”.
  Judeus aprendem desde cedo a perguntar, questionar. No Talmude, uma opinião inteligente de um jovem às vezes prevalecia sobre a de seu mestre. Um bom aluno deve ser livre para criticar seu mestre. No judaísmo, os alunos eram encorajados a se erguer contra o professor, discordar dele, tentar provar que ele estava errado.
  Como povo exilado, os judeus compreenderam cedo que precisavam transmitir a memória nacional em forma de textos, o que permitiu esse foco na educação.
  Enquanto outras culturas tratavam as crianças como “puras”, vendo inocência na ignorância, os judeus eram mais realistas e sabiam que crianças não eram anjos, e que precisavam ser aculturadas.
Bebê manuseando livro

Essa educação baseada em perguntas era espirituosa, tratava de ideias, encorajava a curiosidade e exigia leitura.


  A propensão a discutir e o humor geram aquele outro traço judaico, que é a irreverência. Bom exemplo dela, foi quando um repórter da BBC perguntou a um rabino de Jerusalém qual a sensação de rezar pela paz entre judeus e árabes no Muro Ocidental (das lamentações) nos últimos trinta anos, e ele respondeu: “É como falar com um muro de tijolos”.

  Sem valorizar o martírio ou a morte, e sim a vida e a sobrevivência, até porque os judeus já tinham sofrido o suficiente com o exílio e as perseguições. Isso alimentava a esperança, o desejo de superação, e tudo por meio da educação formal, da leitura dos livros sagrados. Foi assim que os judeus preservaram sua civilização, mas uma civilização viva, aberta ao questionamento, ao novo, com disputas infindáveis de diferentes interpretações. Bastam três judeus para termos quatro opiniões diferentes, diz a “piada”.
  Se há uma razão para o relativo sucesso dos judeus, talvez a explicação esteja aí: nessa obsessão pela palavra, nesse incrível legado transmitido por meio da educação. O Povo do Livro, como é dito. No princípio era o verbo. E desde então continua sendo…
Rabinos em momento de leitura coletiva

Fonte:

terça-feira, 30 de junho de 2015

O Lobby

Atuação do lobista

Quem acompanha o noticiário político e criminal, tem visto diariamente nas afirmações dos Procuradores que atuam na Operação Lava Jato bem como dos delatores, expressões como "foi dinheiro para campanha eleitoral", ou "era doação para partido político". Não, não amigos. Esta operação não tem nada que ver com doações para financiar políticos e partidos, tem sim que ver com a mais descarada lavagem de dinheiro. Dinheiro público, que a partir do pagamento de propinas de grandes empreiteiras e outras empresas prestadoras de serviços privados para agentes públicos, a fim de conseguirem contratos vultuosos com governos de todas as esferas, retorna para as referidas empresas, em montas galáticas.

Isto se dá muito, em parte, porque as relações entre os grupos de pressão ou de interesses, conhecidos como lobistas, não são regulamentados no Brasil, e por isso são ilegais. 
Primeiro, vamos esclarecer o que é um lobista, que ao contrário do que muitos pensam, nada tem a ver com lobos.
O termo deriva da palavra inglesa "lobby", que significa o amplo salão normalmente encontrado em hotéis, palácios e claro, edifícios governamentais. Seria o espaço encontrado em anexo ao "hall" de entrada.
Então, os homens que trabalhavam junto ao Congresso dos EUA, costumavam movimentarem-se no lobby, procurando abordar deputados e senadores, tentando persuadi-los a aprovar ou rejeitar determinada norma ou lei, em favor de um grupo específico, como, por exemplo, professores, religiosos ou desportistas, além, claro, de interesses legítimos de setores privados. Logo, os homens do "lobby", ficaram conhecidos por aqui como os lobistas.

Em países como EUA, Inglaterra e até o México entre outros, a atuação é legalizada e reconhecida como profissão.

Grupos religiosos dos EUA declaram gastar em torno de US$ 400.000,00 (quatrocentos milhões de dólares) a cada ano para ações lobistas de seus interesses. Da para imaginar setores como de laboratórios e medicamentos, armamentos, drogas lícitas e grandes corporações não devem aportar em dinheiro, muito dinheiro, em pressionar agentes para legitimar seus interesses.

Em 2001, nos EUA, o escritório de advocacia Holland & Knight declarou orgulhosamente, ter faturado meros US$ 13,9 milhões (treze milhões e novecentos mil dólares) com atividades lobistas legais.

Então, como vimos, caso as atividades dos intermediadores de interesses que atuam como grupos de pressão estivessem legalizadas, muito do que estamos vendo, estaria solucionado, pois seria legal e principalmente, fiscalizado. No Brasil existe uma proposta, que foi enterrada por três vezes no Congresso pela bancada governista (leia-se PT - por quê será?) que visa legalizar a atuação dos lobistas no país. Trata-se do Projeto de Lei 1202 de 2007, e prevê entre outras normas, que a Controladoria Geral da União seria o organismo a liberar e controlar os registros dos lobistas, e definir os critérios de quem pode ou não ser um agente dos grupos de pressão.

Penso que já passou a hora do Brasil resolver esta questão.

Eu mesmo, caso me enquadrasse na Lei, seria um sério candidato a virar lobista, se é que você me entende...

Fonte:

domingo, 21 de junho de 2015

Dinheiro fértil e dinheiro infértil

Para judeus o dinheiro é fértil, para cristãos é infértil

Desde sempre a relação dos judeus com o dinheiro foi alvo de preconceito - desde piadinhas maldosas até os crimes mais brutais - e mesmo de uma velada admiração. A obra "Os Judeus, o Dinheiro e o Mundo", de Jacques Attali, já abordada neste espaço, conta a história dessa conturbada relação.
Servindo-se de um paralelo cronológico a partir dos cinco primeiros Livros da Bíblia (Gêneses, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), ou Pentateuco, chamado de Torá pelos Judeus, o autor tenta explicar os motivos históricos que impulsionaram o Povo Judeu a tomar essa postura não como opção, e sim por uma condição imposta pelas circunstâncias.
Quando a agricultura era vetor econômico, lhes foi proibido adquirir terras, e quando o escambo representava obter lucro, impediram-los de comerciar.
Tornaram-se então prestamistas e financiadores da economia mundial, prestando serviços que ninguém mais queria prestar, e devido aos riscos que tais atividades representavam, foram inventores do cheque, da letra de câmbio e outros títulos ao portador, bem como pioneiros em redigir cartas comercias, e em abrir casas bancárias.
Gritante é a discrepância com que o assunto é tratado pelo ponto de vista dos judeus e dos cristãos, católicos em especial.
Abaixo, destaco uma passagem do livro de Attali que, ao meu ver, elucida bem os porquês de tanta diferença:
Cristãos e Judeus Perante o Dinheiro
Dinheiro fértil, dinheiro infértil

Os primeiros discípulos de Jesus são judeus praticantes. Seguem a liturgia judaica e respeitam a Tora. Tendo reconhecido o Messias em Jesus, esperavam convencer os outros judeus a aderirem a eles na expectativa do retorno do salvador.
Mas, como o retorno do Messias se faz esperar e as conversões se tornam mais raras, as relações ficam tensas. Os cristãos se dizem o "versus Israel", suspeitavam de que os judeus amaldiçoam Jesus em suas preces e os acusam de "deicídio". Alguns até murmuram que todas as desgraças dos judeus têm sua origem no martírio de Jesus e no papel nele exercido pelos saduceus. Em contrapartida, os judeus declaram heréticos os cristãos e os excluem das comunidades e das redes comerciais.
Os dois ramos do judaísmo distanciam-se assim um pouco um do outro. Paulo de Tarso, em desacordo com Pedro, atrai pagãos, antes simpatizantes do judaísmo. As conversões ao cristianismo se aceleram na Ásia Menor, na Grécia, na Síria, no Egito, em Roma, em Cartago. Em cada comunidade, quando há fiéis em bom número, um padre é ordenado. Quando há padres suficientes, estes elegem um bispo que, consagrado pelos bispos vizinhos, se torna responsabilidade pelos padres e pelos fiéis de sua comunidade. A Igreja ainda não tem Livro santo. Após a morte de Pedro, ela tampouco tem chefe. Este será bem mais tarde, o bispo de Roma, no seio do Império dominante.
Paralelamente, crescem as diferenças entre as duas doutrinas econômicas. Numa e noutra, acredita-se nas virtudes da caridade, da justiça e da oferenda. Mas, para os judeus, é desejável ser rico, ao passo que, para os cristãos, é recomendável ser pobre. Para uns, a riqueza é um meio de melhor servir a Deus; para os outros, ela só pode ser nociva à salvação. Para uns, o dinheiro pode ser um instrumento do bem; para os outros, os efeitos são desastrosos. Para uns, todos podem usufruir do dinheiro bem ganho; para os outros, ele não deve ser acumulado em nossas mãos. Para uns, morrer rico é uma benção, desde que o dinheiro tenha sido adquirido com moralidade e que a pessoa tenha cumprido todos os seus deveres em relação aos pobres da comunidade; para os outros, morrer pobre é a condição necessária da salvação. Assim, Mateus relata esta afirmação de Jesus: "E vos digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (19, 24). E Lucas, embora conclua a parábola do administrador infiel com a frase ambígua ("E eu vos digo: fazei amigos com o Dinheiro da iniqüidade" [16, 9]), com isso reconhecendo a força do dinheiro, logo acrescenta: "Fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca" (6,35).
De fato, para os judeus, como vimos, extrair juros do dinheiro não é imoral; e, se não deve fazer isso entre judeus, é por solidariedade, e não por proibição moral. O dinheiro, assim como o gado, é uma riqueza fértil, e o tempo é como um espaço a ser valorizado. Para os cristãos, ao contrário, assim como para Aristóteles e os gregos, o dinheiro - tanto quanto o tempo - não produz riqueza por si mesmo, é estéril; por isso, fazer comércio de dinheiro é pecado mortal. Essa obsessão da esterilidade do dinheiro também remete ao ódio à sensualidade, proibida fora do casamento. Para a nova Igreja, nada deve ser fértil fora daquilo que é criado por Deus. Fazer dinheiro trabalhar corresponde a fornicar.

*

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Advogado é Doutor?

É. E Médico também!

(*) Há poucos dias ouvi uma defesa quase indignada de um acadêmico doutor em engenharia dizendo que advogado não é doutor porque não fez doutorado, que esse costume indevido de chamar advogado de doutor vinha de uma suposta cultura de dominação sobre os mais pobres e mais uma porção de razões politicamente corretas que não me fazem bem ao estômago.
Embora a ocasião não tenha me ofertado meios para os esclarecimentos necessários, creio conveniente compartilhar com meus colegas de ofício os fundamentos de chamarmos os advogados – e os médicos – de doutores.
Imagem de domínio público. Manuscrito medieval do meio do século XVI, mostrando uma reunião de doutores na Universidade de Paris
Antes de mais nada, deixo claro que nunca liguei para o “doutor”. Mas não há nada de mais nisso. Parece-me uma ciumeira boba esse negócio de se incomodar que alguém que não fez um doutorado na universidade tal reconhecida pelo MEC seja chamado de doutor “injustamente”. Ainda mais hoje que temos até “presidenta”. Chegam a dizer que é injustiça para com aqueles que lutaram tanto para concluir um doutorado. Sinceramente não consigo enxergar como pode chamar alguém de doutor desmerecer o título de outro! Mas vamos aos fundamentos.
Eu sei que vocês já devem conhecer o decreto do imperador de 1º de agosto de 1827, que originou a lei do império de 11 de agosto de 1827. A lei, bastante clara de fácil entendimento, leia na íntegra-


- e não foi revogada, e como a lei não deixa de valer só porque ficou velha, então ela vale e os advogados têm por lei o título de doutor.
De todo modo, como o povo mesmo, aqueles politicamente corretos oprimidos do meu amigo engenheiro, nunca foi muito dado à leitura de leis, nem agora e nem no império, é quase certo que o costume geral (e inofensivo) de chamar não só advogados, mas também médicos, de doutores, vem de algo anterior à lei de 1827.
O tratamento de doutor, bem como a caracterização dos advogados e médicos como profissionais liberais, é um resquício do sistema educacional vigente na idade média.
Naquele tempo, a educação formal tinha como sua principal marca a liberdade: o estudante era livre para estudar ou não estudar, porque a vontade de aprender era considerado pré-requisito para a ocorrência de qualquer educação.
Quando o indivíduo decidia estudar (ingressava-se na escola por volta dos 14 anos, já com discernimento e vontade própria), ele ia estudar primeiro o trivium (gramática, retórica e lógica), depois o quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia), que juntos compunham o que se chamava de as sete artes liberais, as sete artes que se estudava por livre vontade e com total liberdade. O estudante que concluísse com êxito o estudo das sete artes liberais (o que costumava ocorrer por volta dos 20 anos de idade) recebia o título de mestre nas artes liberais.
Aquele dentre os mestres das artes liberais que pudessem e quisessem poderiam então ingressar no estudo das artes liberais superiores: direito, filosofia ou medicina.
Os que concluíssem com êxito o estudo em qualquer das três artes liberais superiores recebiam o título de doutor na referida arte de sua formação. Por isso, no medievo, os filósofos, médicos e advogados eram chamados, justificadamente, de doutores.
As outras áreas de estudo, como construção, arquitetura, engenharias não eram artes liberais, mas artes “prisioneiras”, por assim dizer, porque seu ensino e posterior exercício era controlado pelas corporações de ofício, as guildas, que ditavam desde a grade curricular e vestimenta do estudante até o valor a ser cobrado pelo serviço depois. Os arquitetos então, não estudavam artes liberais e não eram profissionais liberais, porque não tinham na sua formação e nem no exercício do seu ofício, a liberdade usufruída pelos médicos e advogados – doutores nas artes liberais superiores e por isso profissionais liberais.
Embora o fundamento tenha ficado esquecido e a realidade da formação e profissão do médico e do advogado moderno seja muito diferente da idade média, o costume permaneceu e até hoje chamamos o médico e o advogado de doutor.
Isso não quer dizer que o tratamento tem a mesma validade do título acadêmico para fins legais, não vai habilitar o advogado a prestar um concurso que exija a conclusão do doutorado sem tê-lo cursado. Hoje, o doutor é mero pronome de tratamento, que não pode ser exigido, nem precisa ser combatido. É apenas um resquício do medievo.
A lei de 1827 não foi revogada, mas se um dia for, o advogado continua doutor (e o médico também).

(*) Texto original do Blog Petição Inicial. Confira no link abaixo:

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Fim de uma era?

Nos tempos do pós-guerra, muito falava-se sobre a eminência de outro conflito armado entre nações, a espionagem militar decifrava códigos, a corrida especial estava a mil, o mundo era divido em dois blocos.
Era a chamada guerra fria, onde os EUA e seus aliados do ocidente polarizavam com a antiga União Soviética e demais forças do socialismo a hegemonia pela detenção do poder.

Sobre isto, li um texto de Leonardo Boff bastante interessante.

Hoje, há diversas correntes de estudiosos que concordam que já estamos há muito às vésperas, não de uma Terceira Guerra Mundial, mas sim da Quarta Guerra Mundial, pois o enfrentamento de problemáticas que envolvem o terrorismo, questões ambientais, a luta contra a fome, miséria e tantas desigualdades, e até mesmo o sangrento ambiente das disputas entre grandes corporações já definem o cenário atual como uma Grande Guerra Mundial, senão armada no todo, tão brutal e mortal quanto qualquer conflito bélico.
Final dos Tempos

Verdade é que o mundo de hoje vem dando claros sinais de uma espécie de ruptura sistêmica com o que já vivemos, e que os estudiosos concordam que não estaremos por ver, mas que já vemos uma transição de eras, onde o final de uma está em curso e outra, diferente e nova emerge dia após dia.
Os fatores comumente apontados para tal fenômeno, vão desde o declínio da liderança americana em razão da crise capitalista e sua consequente perda de posição de maior potência do mundo para a China, e assim a incapacidade de impor sua tese imperialista como antes. Para isto, dá-se o nome de queda do superimperialismo.

Com isto, passaríamos (ou estamos passando) por um superconflito, com a balcanização do mundo, tendo a Ásia, Oriente- Médio e África como lugares de destaque central deste cenário.

Nasce um Novo Tempo
Superada a fase, os novos tempos veriam o surgimento de uma superdemocracia, onde para não se destruir a si mesma e a biosfera como um todo, a humanidade elabora um novo contrato-social, com  estâncias plurais de governabilidade global. Com bens e serviços escassos,  a humanidade encontraria uma forma totalmente nova para garantir a sobrevida espécie humana e da própria Terra de Gaia.

Segundo os estudiosos do tema, se esta última fase não surgir, dificilmente os novos tempos ou a nova era chegará, e ao contrário, seria mesmo e de forma definitiva o que chamamos de final dos tempos, o epílogo da história humana.

Para ver mais, vá ao link:

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Uma Pequena Grande Nação

* Sobre Israel:

A convite da ONG “The Face of Israel”, que visa a atrair jornalistas e formadores de opinião em geral ao país para conhecê-lo melhor e para além das fontes tradicionais da imprensa, muitas vezes enviesadas, passei os últimos cinco dias rodando algo como mil quilômetros e visitando cada canto de Israel, conversando com muita gente diferente, vendo in loco como é a vida nesse caldeirão de culturas, religiões e povos. Dos quase 8 milhões de habitantes, algo como 75% são judeus, sendo pouco mais de 10% ultra-ortodoxos, e há também muitos árabes, alguns cristãos e uma minoria de drusos.


Ao contrário de muitos que alimentam um viés contra Israel, já cheguei lá com o respeito e admiração que tenho pelo que os judeus, com o auxílio de outras minorias, foram capazes de erguer em meio a um terreno hostil (menos de 15% da terra é arável), com boa parte desértica, em torno de vizinhos ainda mais hostis do que a própria natureza. Admito que saí de lá com uma impressão ainda melhor. Israel é algo impressionante mesmo.
Simbolismo: estátua da baleia que engoliu o Profeta Jonas
Para começo de conversa, podemos transitar entre o que há de mais moderno do século XXI, na cosmopolita Tel Aviv, uma das cidades mais amigáveis aos gays no mundo, por exemplo, e algo como quase três mil anos de história, tudo isso em poucos quilômetros de distância, ou até metros. Jaffa, cidade portuária das mais antigas do mundo, incorporada a Israel na década de 1950, remete-nos aos textos bíblicos, quando Jonas foi engolido pela baleia.

Não é algo muito comum essa convivência mútua entre passado e modernidade. A chegada ao belo aeroporto de Ben Gurion e a primeira noite em Tel Aviv, infelizmente tempo curto demais para aproveitar o lado mais ocidentalizado e moderno do país, causam a nítida impressão de que chegamos a um rico país europeu ou mesmo aos Estados Unidos. Mas logo depois chegamos a locais que existem há milênios, impregnados de história, de conflitos religiosos, de tradição, de beleza e, para quem acredita, de coisas sagradas.
Tel Aviv - Milenar, bíblica e pujante
Rodando tudo isso com excelentes guias selecionados pela ONG, foi uma verdadeira aula de história em poucos dias, que pareceram algumas semanas, pela grande intensidade. Impossível absorver tanta informação e história em tão pouco tempo.

Foram inúmeras entrevistas com acadêmicos, com pessoas locais, com políticos, religiosos, e tudo isso será melhor explorado em textos posteriores. Há material suficiente para um livro. Aqui, gostaria apenas de dar minha visão geral da coisa, do que vi Israel é uma nação desenvolvida, quase rica nos padrões europeus, com uma renda per capita acima de US$ 35 mil (a do Brasil é de US$ 12 mil). Mas não é só isso: há pouca miséria, quase não vemos pobreza, e também não vemos muita ostentação. Nem mesmo em Tel Aviv encontramos carrões, muito menos carroças. Ou seja, é um país classe média alta, basicamente. E, pelo incrível que pareça, seguro.
Provavelmente pela história de perseguições e sofrimento do povo judeu, assim como seus ensinamentos religiosos de solidariedade, trata-se de um país simples, em que o nosso motorista, por exemplo, um judeu de origem árabe, participou de todas as refeições com nosso grupo de jornalistas, sem qualquer distinção ou cerimônia. O acolhimento nos lugares que visitamos também era da mesma natureza. Temos a sensação de que não há frescuras, tampouco esnobismo ali.
Apesar de todas as guerras que atravessaram em poucas décadas como estado nacional, os israelenses demonstram grande otimismo em relação ao futuro. São pessoas que lutam para sobreviver e prosperar, via de regra, e demonstram um belo sentimento patriótico. É uma visão e tanto a daqueles jovens todos, meninos e meninas com cerca de 18 anos, circulando por todo lugar com seus fuzis pendurados, orgulhosos de seu aprendizado militar. 
Jovens prestando o serviço militar
Os israelenses olham as dificuldades como obstáculos a serem superados

Sua democracia é pujante, com a participação de todas as minorias, como a dos próprios árabes, que possuem algo como 10% dos 120 assentos no Knesset, o Parlamento israelense. Os debates são abertos, as críticas ao governo são duras. Uma característica visível no israelense é o hábito de ser franco e direto, de falar normalmente o que pensa sem muita cerimônia ou rodeios. Israel, nesse sentido (como em outros), destoa como um oásis democrático e livre no Oriente Médio, região dominada por ditaduras e teocracias.
Vista do Knesset, o Parlamento israelense

Em suma, não resta dúvida de que os israelenses ergueram em meio a uma região complicada um pequeno pedaço de civilização mais avançada, próspera e livre. E, além disso, criaram finalmente um lar para o povo judeu, perseguido desde os tempos imemoriais. Como disse, reuni amplo material de entrevistas que pretendo utilizar em artigos futuros. Mas não poderia deixar de resumir logo essa primeira impressão: Israel é um pequeno grande país que merece nosso respeito, apoio e admiração.

* Fonte Rodrigo Constantino. Mais, no link abaixo: